Em alguns poucos minutos, três ambulâncias passaram pela avenida em frente à minha sacada. A sirene de ambulâncias invariavelmente traz à minha memória meus dois irmãos mais velhos: Justino e Federico.
'Dois sonhadores', papai sempre se referia a eles assim. Alistaram-se como os outros quase 25 mil soldados brasileiros que foram enviados para a Europa para combater ao lado das forças estadunidenses na Itália.
Para os dois foi a grande e única oportunidade de conhecer o país de nossos antepassados. Atravessar o oceano e sentir o cheiro da Itália, pisar a terra da Itália, falar italiano sem medo de falar italiano...
Voltaram cheios de histórias.... as consequências de uma guerra nunca são boas... são dramáticas, são brutais. 'Seres humanos transformados em brutos' eram palavras mil vezes repetidas por Tino.
Lembro agora de que eles sempre contavam que, ao entrar em uma cidadezinha perdida entre os montes, um dos soldados atirou em um homem que surgiu de repente em frente a eles. Justino perguntou: 'por que você atirou?' E o soldado respondeu: 'talvez ele fosse um rebelde'.
Mas a sirene da ambulância me faz lembrar mesmo é de Ico....era médico que ele queria ser... Depois da guerra, nunca mais quis ser nada. Viveu até o último dia de sua vida da terra em que plantava tudo o que precisava e dos animais que criava.
'Tenho tudo o que preciso.... e já vi tudo o que precisava ver para perceber que não vai fazer a menor diferença se eu curar uma ou dez mil pessoas como médico, a vida de cada um e de todos é verdadeiramente inútil', dizia sempre....
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