Saudades... quantas saudades eu sinto. Do primeiro momento que tenho na lembrança - inverno de 1929, na carroça com papai e com Justino e Federico.
Eu era a garotinha de papai.... e meus dois irmãos implicavam comigo. Eu tinha nas mãos - sempre - uma cadernetinha cheia de anotações. Não eram minhas anotações, eram anotações de papai. Ele era o dono do único moinho num espaço enorme de vilarejos... e usava cadernetinhas para anotar tudo sobre o que moía, vendia, comprava....
'Pra que levar esse caderninho?' 'Você nem sabe ler!' 'Não sabe desenhar e se soubesse não tem nenhum lápis...", diziam os dois pra mim. E eu? Eu não me importava - sabia que estava segurando nas mãos todo o meu futuro: queria ser professora (que como você já sabe fracassei antes mesmo de começar.... ou não). Outras vezes, odiava os dois por me dizerem aquelas palavras ruins e enchia os olhos de lágrimas.
E papai me abraçava e sempre dizia 'lascia stare, bambina mia...'. E eu fungava, limpava o nariz e secava as lágrimas.... engolindo seco... e abraçava a cadernetinha como se fosse o bem mais precioso do mundo.
Inverno gelado aquele... mas não foi só o frio que fez as pessoas sofrerem muito naquela época...
Primeiro momento gravado na minha memória até o de há poucos minutos.... saudades do que vivi.
Terei saudades da vida... quando eu partir?
E a cadeira pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.... mais um cochilozinho....
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